Com afeto e violência construímos

nosso próprio país

 

Bruna Fernanda Vieira Silva e Tânia Rivitti

Janeiro de 2021

Os trabalhos do coletivo Terroristas del amor, formado pelas artistas Dhiovana Barroso e Marissa Noana, de Fortaleza, apontam para uma urgência de mudanças. Registram, de um modo alegre e irônico, experiências de corpos dissidentes e periféricos, enfatizando a força que têm nesse movimento as identidades e as redes de apoio. Frases curtas presentes em diferentes suportes condensam narrativas de denúncia e de solidariedade. “Fique perto das suas”, “Ser perigo”, “Derrubar para edificar”, “Terra a terra” e “Aqui nós existimos” são expressões que revelam não só um diálogo com a cidade e seus habitantes como posturas de alerta à violência que os corpos heterodoxos vivenciam. Expressam que é urgente criar, dentro do que se chama arte urbana, espaços novos que alterem o regime colonial perpetuado pela língua e muitas vezes preservado como patrimônio histórico. Com obras autobiográficas, as artistas registram seus corpos em fotos, lambes, murais, gravuras, pinturas digitais, bordados e animações curtas para sublinhar a importância do afeto e do reconhecimento de existências divergentes, ainda invisíveis, que se constituem a partir da atuação coletiva no campo das artes.

A proposta de luta anda lado a lado com os afetos e as possibilidades de construção de novos territórios coletivos nas obras das Terroristas. Terraaterra é uma instalação de 2019 ainda em processo de construção. De sua montagem original permanece o tríptico de bandeiras, que convidam à guerra por meio de frases bordadas e facões; mas ataque e defesa coexistem nelas – a proteção é dada pelas espadas-de-são-jorge. A solidariedade e o espaço seguro para a existência de todos os corpos são construídos com simbologias e memórias. Contra-ataque é o que está sendo proposto – assim como o artista e ativista Jota Mombaça propõe a existência como contratrabalho para aquelas “herdeiras malditas de uma guerra forjada contra e à revelia de nós”. 

Alguns símbolos se repetem em outras produções do coletivo, sobretudo naquelas ligadas aos rituais de limpeza e preparação, tão presentes na memória afetivas das artistas criadoras quanto no cotidiano das periferias e interiores de todo o país, onde as narrativas e práticas pretas e indígenas se perpetuam para além dos ataques e da violência da colonialidade. Fogo Ardente é um exemplo desse tipo de ritual: na animação, o banho de assento é ao mesmo tempo cura e preparação para as batalhas diárias, e o fogo é símbolo de renovação do corpo. Quando este reaparece na gravura que retrata o casal de artistas com o rosto coberto com balaclavas, a referência é a mesma: o ataque se dá pela renovação da potência de vida; as artistas e a coletividade que com elas partilham suas experiências são maiores que seus traumas. 

O trato das Terroristas del Amor com o espaço também se dá por essa relação de afirmação das existências não normativas e do afeto como forma de construção de novas possibilidades espaciais e culturais. “Como construir nosso próprio país” é o subtítulo que compõe a nova versão da instalação Terraaterra e aponta para esse desejo de edificar o novo sobre a estrutura violenta e traumática de nosso país. Na obra, ficam explícitas a inerência entre corpo e território e a necessidade da produção coletiva na construção que está sendo proposta. Do mesmo modo, Solos Férteis para Habitar é um mural feito na empena de um prédio no bairro Grande Jangurussu, em Fortaleza, que utiliza a mesma estratégia para ocupar o espaço público com cores vibrantes e formas carinhosamente conhecidas por Dhiovana e Marissa: o mamoeiro é árvore que cresce entre entulhos, dá frutos, alimenta-se da terra e nutre suas companheiras, assim como as artistas, que enunciam práticas de raízes ancestrais, buscam sua força na terra, ramificam-se através de sua potência e bravura e frutificam pelo amor. Esse é um movimento de abertura de portais férteis em espaços opressores, usando suas próprias palavras. 

Contra Todo Dito Ruim é outro mural realizado nas ruas de Fortaleza como disseminação das raízes e dos ramos cultivados pela produção artística das Terroristas del Amor. É interessante perceber que os dois murais aqui referenciados foram produzidos pelo coletivo no ano de 2020. Quando a sociedade de modo geral se voltou para os interiores e espaços privados, as artistas impulsionaram seus trabalhos de arte pública, reafirmando seu projeto de construção de espaços seguros para todes, mesmo em territórios construídos com diversas camadas do regime colonial genocida e epistemicida. A escolha formal do coletivo por símbolos e referências de suas vidas e da relação amorosa que vivenciam não é apenas uma opção autoafirmativa e individualista; é justamente uma prática artística de construção de identificações e aproximações entre existências ditas dissidentes, historicamente apagadas e violentadas e continuamente excluídas por nossa sociedade, de maneira simbólica, epistêmica ou material, mas que contra-atacam de forma solidária com toda a sua potência de vida e todas as suas formas de ser.  

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