Se não me deram passado,

faço meu presente

 

Talita Trizoli

janeiro de 2021

Laryssa Machada (1993) está envolta em autoficções – e é como articuladora de autoficções que sua encenação fotográfica se mostra como um recurso possível para o rearranjo de narrativas não apenas de si, mas do mundo, principalmente sob uma perspectiva decolonial. O exercício de olhar para si como objeto de dobra e desdobra imagética não é de modo algum novo na prática artística, muito menos a representação do entorno social. No entanto, as imagens articuladas pela artista possuem como diferencial não a mera captura cotidiana nem as articulações críticas sobre a absurdidade da vida, mas as confabulações arquetípicas de narrativas, objetos, imagens e sujeitos historicamente relegados a condições de fragilidade/exploração social. 

As imagens de cores saturadas e brilhantes, ora presentes em superfícies chapadas, ora apresentadas numa gradação tonal de luzes e texturas diversas, poderiam ter como referência a pictorialidade das fotografias de Miguel Rio Branco, também pela proximidade de extrato social dos sujeitos capturados pelas lentes fotográficas. Rio Branco, no entanto, é um fotógrafo devorador, protótipo do homem branco que transita pelo mundo consumindo imagens, histórias e sujeitos, para quem o outro é sempre um outro que lhe pertence, naturalmente!

Já Laryssa Machada coloca seus sujeitos retratados (e a si mesma) em outro patamar: há uma tentativa de construção de dignidade a partir da reelaboração de signos pertencentes às culturas afrodiaspóricas e indígenas, com as quais a artista se identifica e/ou dialoga, tendo como referência a dupla Krenak/Kopeawa e tantas outras figuras anciãs que ela escutou em aldeias durante seus projetos de produção de documentários e oficinas de cinema. Em vez de um consumo irrestrito do mundo pelas lentes, Machada entende o gesto fotográfico como um ritual evocativo que interfere na concretude do mundo, uma possibilidade de renegociação

com o real.

Em concomitância a essa reverência cultural, há também a mobilização de recursos cenográficos da cultura pop e popular, numa articulação formal já largamente utilizada pelos protocolos do afrofuturismo com o objetivo de formular possibilidades de existência que não estejam centralizadas em narrativas eurocêntricas – mas não necessariamente em uma condição utópica, otimista com o futuro, mas crítica às limitações de mudança das estruturas sociais, como bem evidencia uma frase que a artista tem repetido em conversas: “Por que conseguimos imaginar o fim do mundo, mas não o fim do colonialismo?”.

Para além dessa confabulação arquetípica e mesmo trágica, em que a artista, como modelo (ou outros sujeitos), se mostra em ambientes de ares cênicos na condição de símbolos heráldicos, chamam atenção também seus autorretratos, pois estes são a extensão de um esforço de deslocamento, de um encontro e desencontro da artista com territórios de referencialidade ancestral – natural de Porto Alegre, nos últimos anos Machada vem se deslocando pelo Nordeste, mantendo seu atual pouso na cidade de Salvador, justamente por ter se identificado com o ambiente, as pessoas e a latente permanência de mistérios antigos e desobediências civis embaralhados na malha social. 

Nessas autoimagens, autoficcionalizadas – ou ebós-imagéticas, como a artista pontua –, existe uma preocupação de nublar categorias de gênero e de história, a fim de reconfigurar, pelo fragmento temporal da fotografia, um outro índice de mundo, uma outra possibilidade de subjetividade. 

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