O desejo de digerir

Anelise Valls

janeiro de 2021

 

A formulação do conceito de antropofagia de Oswald de Andrade opera uma reflexão crítica sobre a herança colonial do país, incidindo em uma necessidade de emancipação cultural e de definição de uma identidade nacional em relação ao domínio do estrangeiro. A abordagem presente no movimento antropofágico – e implementado pelos artistas visuais do modernismo brasileiro em suas obras – salienta o processo de hibridação e o aspecto da heterogeneidade, emancipação que, vale lembrar, sustenta a incorporação de influências culturais de fora. O programa oswaldiano é revisitado e atualizado por diversos artistas contemporâneos, que desenvolvem a busca de abertura para outros níveis de sentido e reflexão; entre as estratégias que nos cabe salientar aqui estão as possíveis intervenções contra formas de opressão e de hierarquias de dominação. 

Em favor de um tratamento criativo da alteridade, da corporalidade, da identidade e do hibridismo, Monica Coster Ponte (1995- ), paulistana graduada em Artes Visuais (UFRJ), dedica-se atualmente à pesquisa sobre processos digestivos, sejam eles de formas humanas ou não. Como propor um sistema digestório que não consista somente em um tubo linear e esteja além das concepções científicas ocidental-tradicionais? 

A artista se apropria das inflexíveis representações da ciência nas estruturas que compõem o caminho boca-ânus para mobilizar outras formas de discriminação e criar com o uso da metáfora da incorporação – antropofagia que também tem lastro em uma concepção científico-cultural. De forma transformativa, Monica Coster cria novos estômagos, que aparecem sob formas e nome de  Panças, recipientes em formatos circulares de barro cru, completamente fechados, que guardam pedaços de alimentos em decomposição. Ovos, queijos, batatas, figos, abacates são "digeridos" por esses estômagos externos;  na verdade, essa incorporação provoca um outro processo, o da podridão. Na condição de clausura, os alimentos convivem com a presença de novos seres – os fungos –, que são bem-vindos: a revogação de diferenças é executada e construções de identidades híbridas são desenvolvidas. Ainda que fungos tradicionalmente sejam identificados como ameaça ao nosso corpo e ao funcionamento dos nossos órgãos, sua presença é a chave desviante da natureza dicotômica que opõe natureza e cultura. Panças reconsidera a noção de nojo-apetite. Essas arquiteturas orgânicas também se apresentam com cavidades, obra chamada Boca, que  recebe as formigas como participantes dessa simbiose. Corpos minúsculos que operam transformações lentas e graduais entre entre o interior e o exterior do corpo, devorar que articula novas formas de diálogos. 

As louças feitas de argila – de utilitários a recipientes, como talheres (Buchos), formas e vasilhas – vão ao encontro da concepção de uma digestão que aceita outros ciclos e formas de vida, problematizando, portanto, o que é dito e construído como natureza sobre o corpo humano. Considerando as extremidades boca-ânus, a artista trabalha a noção de "digestão expandida" e ressignifica o que pode ser direcionado à boca em termos de abundância e vida, ao propor um novo sistema que seja circular e que atribua ao ânus também a significação de produção de riqueza.

Além das cerâmicas, sua produção conta com os vestíveis, bolsas de plástico costuradas na região abdominal, destinadas à decomposição de alimentos presentes na performance Digestão de Dentro / Digestão de Fora. O apodrecimento se relaciona de forma viva com as obras, permitindo novas imagens efêmeras a partir da frutificação dos fungos. Essa externação do que habita dentro e, ao mesmo, a interiorização de outros elementos investigam modos de contato e de existência a partir de uma natureza polimórfica.

A forma e o material do trabalho de Monica Coster tomam como base o corpo humano, e é na fusão simbiótica dos recipientes com outros modos de vida que é possível anular a diferença entre os dois. A artista implementa uma penetração nas fronteiras de organismos,  permitindo uma expansão da consciência do corpo e de seus processos, em obras que podem ser elas mesmas percebidas como um organismo vivo, por não se encontrarem num estado estático, mas em permanente mutabilidade. Em trabalhos que não falam da perda da pureza, mas sim da possibilidade da existência da diferença, uma coexistência e um dialogismo produtivo, Coster destina uma potência de intervenção com a qual hierarquias e dicotomias de qualquer espécie são revogadas; criações que realizam destruição de categorias em favor de uma convivência criativa entre o que vive e o que morre.

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